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quarta-feira, março 03, 2010

Solidão

é quando seu dia dá todo errado
e tudo o que você quer fazer
é sumir como a fumaça no vento.

sábado, janeiro 23, 2010

Chame as chamas

É incrível como a relação de duas pessoas modifica drásticamente o humor daqueles que estão à sua volta. Como suas brigas sem sentido viram nossas brigas sem sentido; como os gritos entre si viram gritos entre nós; como os olhares de ódio se voltam contra você. Só por você estar ali.
Não importa se você já pediu desculpas, já se arrependeu de ter feito tal coisa ou não ter feito tal outra do jeito que eles queriam, a discussão sempre acaba nos ouvidos que estão ali por uma razão totalmente aleatória. E não é como se isso acontecesse com um pedido de ajuda, com sua intromissão, com qualquer tipo de interferência; acontece como que espontâneamente, como um incêndio que começa no tapete da lareira, se espalha para o sofá e começa a queimar as cortinas: logo a casa inteira está em chamas.

Quero arranjar um trabalho e sair de casa, arranjar minha paz, mas não quero sacrificar meu futuro para isso. Esse futuro é bonito demais - e não é mais só meu. E eu gosto disso.

segunda-feira, dezembro 07, 2009

As cidades invisíveis ¹

AS CIDADES E A MEMÓRIA 5
"Em Maurília, o viajante é convidado a visitar a cidade ao mesmo tempo em que observa uns velhos cartões-postais ilustrados que mostram como esta havia sido: a praça idêntica mas com uma galinha no lugar da estação de ônibus, o coreto no lugar do viaduto, duas moças com sombrinhas brancas no lugar da fábrica de explosivos. Para não decepcionar os habitantes, é necessário que o viajante louve a cidade dos cartões-postais e prefira-a à atual, tomando cuidado, porém, em conter seu pesar em relação às mudanças nos limites de regras bem precisas: reconhecendo que a magnificência e a prosperidade da Maurília metrópole, se comparada com a velha Maurília provinciana, não restituem uma certa graça perdida, a qual, todavia, só agora pode ser apreciada através dos velhos cartões-postais, enquanto antes, em presença da Maurília provinciana, não se via absolutamente nada de gracioso, e ver-se-ia ainda menos hoje em dia, se Maurília tivesse permanecido como antes, e que, de qualquer modo, a metrópole tem este atrativo adicional - que mediante o que se tornou pode-se recordar com saudades daquilo que foi.
Evitem dizer que algumas vezes cidades diferentes sucedem-se no mesmo solo e com o mesmo nome, nascem e morrem sem se conhecer, incomunicáveis entre si. Às vezes, os nomes dos habitantes permanecem iguais, e o sotaque das vozes, e até mesmo os traços dos rostos; mas os deuses que vivem com os nomes e nos solos foram embora sem avisar e em seus lugares acomodaram-se deuses estranhos. É inútil querer saber se estes são melhores do que os antigos, dado que não existem nenhuma relação entre eles, da mesma forma que os velhos cartões-postais não representam a Maurília do passado mas uma outra cidade que por acaso também chamava Maurília."
Italo Calvino